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Cacareco

Cacareco

 

Sou professor de literatura, e esse meu ofício pode dar margem a equívocos. Um exemplo: as pessoas acham que vivo rodeado de livros solenes e que meus pensamentos estão sempre ocupados com questões elevadíssimas.

De fato, gosto dos meus livros. E, sim, muitos deles são solenes e mostram épocas remotas. Sem querer bancar o bom, mas já bancando: tenho certa familiaridade com os relatos da invasão napoleônica na Rússia, no começo do século XIX. É que eu já perdi a conta de quantas vezes li "Guerra e paz", do Tolstói.

Talvez a minha empolgação com a literatura abra espaço para os equívocos que mencionei no primeiro parágrafo. Eu encho a boca, por exemplo, para falar da lâmina poderosa que é o estilo de Machado de Assis.

Vejam só o que é a natureza: planejei este texto com o propósito de não tocar na literatura. Estamos no quarto parágrafo, e eu já lasquei duas referências literárias. Somos abismo, não tem jeito.

Já que estou revelando os bastidores deste texto, mais uma informação: eu queria, hoje, escrever a respeito das maravilhas das coisas consideradas fúteis. Bom, falemos delas. Deixemos os aspectos elevados da vida para uma outra oportunidade.

Releio de forma maníaca os meus clássicos, mas gosto de reparar nas propagandas de carro, por exemplo. Tenho idade e chatice para reparar nessas coisas. A Patrícia que o diga. Fico irritado com as propagandas que sempre mostram caminhonetes fazendo curvas agressivas no barro. E a música não muda: muita guitarra, para despertar nosso ímpeto aventureiro. Nessas horas, recorro à memória e ao YouTube. As propagandas dos anos 80 eram mais singelas.

Vocês sabem que uma coisa puxa outra. Reparo nos comerciais recentes de carro, vou dar uma fuçada nos comerciais antigos no YouTube, e acabo meditando sobre coisas como o relógio digital do Del Rey, a linha cinza mais escura na lateral do Monza Classic, o aerofólio do Gol GTS. Aí, minha gente, é difícil segurar o embalo.

Falei de carros, mas o mesmo processo pode ser aplicado a brinquedos, comida, roupa, pisos, lustres. Sou um fanático das miudezas. Nunca percam de vista o seguinte: nossa memória opera a partir dos detalhes. O chocolate Surpresa - aquele que vinha com um cartão explicando os hábitos do lobo-guará - carrega consigo, sei lá, o cheiro do bolinho de chuva da casa da vovó. Ora, é a parte pelo todo, mais conhecida pelo pomposo nome de "sinédoque". E a sinédoque aguça nosso lado investigador. Não é uma delícia?

Agora vocês me dão licença: preciso voltar ao meu Tolstói. Mentira: vou dar uma olhada no piso do salão de festas do meu prédio. Ele é do final dos anos 70. Ou será do começo dos anos 80? Essa dúvida precisa ser resolvida.

Viva o cacareco!

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