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Visita do autor Ignácio de Loyola Brandão coroa projeto de leitura da Unidade Zona Norte

"Quando saí daí naquela tarde,
disse a mim mesmo: vale a pena escrever,
vale a pena ter usado 
a minha vida nisso"
(Ignácio de Loyola Brandão)

 

"Vou para a vida, sempre. Porque em cada lugar pode ter uma turma como a do Objetivo ZN, com uma Marisa Telo à frente", disse Ignácio de Loyola Brandão em carta de agradecimento à escola. O autor participou de um bate-papo com os alunos na tarde do último dia 5, na unidade Zona Norte, no qual declarou estar em plena forma aos 80 anos e com muitos projetos em vista. 

Segundo Loyola, a escolha pelos livros foi acertada. "Vez ou outra questiono minhas escolhas. Mas quase sempre tenho a certeza de que fiz o que deveria ter feito. Neste ano, por exemplo, tive alguns grandes momentos que me deixaram feliz, que me asseguraram que escrever é minha vida", revelou o escritor, com a leveza e o bom humor característicos de quem alcançou a plena realização.

Brandão enfatizou o papel da literatura na sociedade: "Só causa o efeito desejado se incomodar, provocar, estimular questionamentos e reflexões; do contrário, não serve para nada". Neste ano, além de completar 80 anos de idade, Loyola viveu um dos momentos mais felizes de sua vida ao receber o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, como Mestre da Narrativa pelo conjunto da obra. Mas o autor não se deixa iludir: "Prêmios são bons, afagam o ego, nos dizem, continue, vá em frente. Mas importante é a obra, não o brilhareco momentâneo".

Outro feito destacado pelo literário foi ter voltado a escrever romance, o que, segundo ele, não o fazia há dez anos. "Sentia falta de uma corrida de longo alcance como é um romance. Precisava disso para extravasar a perplexidade que sinto diante do Brasil e do mundo. Desse Brasil com políticos corruptos, deteriorados, egoístas, mesquinhos". Após a palestra, Loyola realizou uma sessão de autógrafos e conversou com os alunos.

 

Projeto de leitura

A visita do escritor araraquarense coroou o projeto de leitura desenvolvido neste ano pela professora Marisa Telo em parceria com os segundanistas do Ensino Médio do período da manhã. De acordo com a professora, o projeto de leitura é uma espécie de "embrião" do próximo grande trabalho da instituição: a Semana de Humanidades e Artes do Objetivo Zona Norte, a Shazon.

Marisa explica que, neste ano, o livro escolhido para integrar o projeto de leitura foi "Não verás país nenhum", do Loyola. "A obra, apocalíptica, descreve um Brasil sem água, sob intensa ditadura. Após a leitura, os alunos idealizaram diversos projetos - 19 ao todo -, os quais foram integrados a um único evento: a recepção do autor para um bate-papo", detalhou.

A partir de diversas abordagens, os projetos reproduziram ficcionalmente o Brasil imaginado por Loyola. Assim, no dia de sua visita, além do cenário apocalíptico e caótico, toda a escola foi "posta sob dura ditadura". Para circular pelos corredores, por exemplo, era preciso adquirir fichas que autorizavam a livre circulação; a mesma regra valia para quem quisesse beber água. "Civiltares" e "militécnicos", representados pelos alunos, cuidaram da segurança e chegaram até mesmo a prender o autor, que participou das performances com muito bom humor.

Buscou-se a fiel reprodução dos cenários apocalípticos de Loyola, com "coleta de urina" para posterior reciclagem, exposição de aromas e "cirurgia" para retirada da memória, entre outras simulações. Também participaram do projeto os primeiranistas do Ensino Médio da escola. Desta participação surgiram mais seis trabalhos que integraram o evento do Loyola, a partir da leitura da obra "Cadeiras proibidas", também do autor araraquarense. Em uma das intervenções, todas as cadeiras da escola foram "interditadas"; em outra, Loyola foi presenteado com um livro escrito por duas alunas - o que o deixou bastante emocionado.

Ainda dentro do projeto piloto, todas as classes participaram da Primeira Exposição de Artes e Humanidades com três diferentes olhares: a Gramática das Ruas, uma exposição de fotos e textos, revelando a linguagem das ruas; Vivência Cubista, exposição de colagens dos terceiranistas e Vivência Dadaísta, no qual os alunos dos segundos anos puderam expor textos e colagens.

Dias depois da visita, o escritor descrevera em sua carta de agradecimento: "(...) nesta minha idade, estar diante de um grupo como o de vocês, ansioso, atencioso, excitado, cheio de adrenalina, por causa de livros meus, é de tirar o fôlego. Quando saí daí naquela tarde, disse a mim mesmo: vale a pena escrever, vale a pena ter usado a minha vida nisso. Quando você chega a essa conclusão em alguns momentos, você fica feliz (...). Vocês não podem calcular o que foi ver meus personagens refeitos, reciclados, relidos, mexidos, transformados, vivos. Deixou-me arrepiado. Eu ficava pensando: o que virá?  A cada momento era uma surpresa. Serei preso? Terei ficha para entrar naquele espaço? A Casa dos Vidros d?Água ainda está intacta? Vocês entenderam o livro. Fiquei preocupado quando a máquina de  cancelar memórias começou a funcionar, mas eu tinha trazido meu capacete- protege-lembranças (...)". Confira a carta na íntegra:

 

São Paulo, 9 de outubro de 2016.

Amigos e amigas do Objetivo ZN, Sorocaba

Alunos dessa iluminada Marisa

Ao longo desta vida, vez ou outra penso: escolhi certo? O que faço chega em alguém? Vale a pena fazer o que faço, me dedicar tanto a este ofício? Quem não tem dúvidas, inseguranças,  quem não se questiona?

No entanto, algumas vezes tive certeza de que escolhi o que devia escolher. Primeiro, porque me sinto bem, me sinto feliz quando me sento ao computador,  quando convoco meus personagens, quando algum tema  se insinua, dizendo: me use, quando vejo meu livro publicado, quando percebo um leitor com a cara mergulhada em um texto meu.

Este ano tive alguns grandes momentos que me deixaram feliz, me asseguraram que escrever é minha vida. Um deles foi quando consegui voltar ao romance, o que não fazia há dez anos. sentia falta de uma corrida de longo alcance como é um romance. Precisava disso para extravasar a perplexidade que sinto diante do Brasil e do mundo. Desse Brasil com políticos corruptos, deteriorados, egoístas, mesquinhos. Deste mundo cheio de guerras; de refugiados morrendo no mar quando buscam a vida; desses terrorismos; desses serial killers; desses estados islâmicos a decapitar pessoas e a destruir monumentos históricos; dessa vaidade, desse culto a celebridades vazias, tolas, infantis;  desses condutores da morte que são os traficantes; dessas cirurgias plásticas deformantes para conservar uma juventude que escapa e jamais voltará, porque é a lei da vida. Teremos futuro ou estaremos mortos? E meus netos, e vocês que começam a vida?

Outro momento foi quando recebi o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, como Mestre da Narrativa pelo conjunto da obra. Prêmios são bons, afagam o ego, nos dizem, continue, vá em frente. Mas importante é a obra, não o brilhareco momentâneo.

Um terceiro momento, o de ter chegado aos 80 anos com a mesma disposição que sempre tive na vida para escrever, falar, viajar pelo Brasil ajudando professores a formar leitores. Claro que o corpo não é mais o mesmo, não fico horas de pé  num show dançando ao som de meus cantores e músicos prediletos; claro que não corro mais cem metros na velocidade de Usain Bolt. Aliás, nunca corri assim. Por outro lado, ele precisa correr tanto? Aonde quer ir? Claro que uma cadeira incômoda, uma poltrona de cinema ruim, me deixa com uma dor nas costas. Raves?  Não faço mais há muito tempo. Baladas? Chega uma hora, quero ir embora, principalmente se o vinho acabou e vejo que dali não vai sair mais nada. Mas ganhei uma sabedoria: não preciso mais correr como louco, o devagar é muito bom. Por que se corre tanto? Para ir aonde?

Lembro-me de que anos atrás, um grupo de amigos se reuniu para ir a um casamento, no interior, de uma pessoa muito querida. Saímos do mesmo lugar, mesma hora, em cinco carros. Um dos carros se distanciou na estrada, perdemos de vista. Os outros = nós - foram parando em postos, tomando café, comendo um pão de queijo, alguns fumavam. Paramos numa colina para ver o rio Tietê que parecia imóvel como um espelho lá embaixo e aquilo nos deu paz. Finalmente, chegamos à cidade, fomos para o encontro combinado. O amigo que tinha disparado na frente estava na varando da casa, louco da vida.

-     P...!!!! Onde foram? O que fizeram? Estou sentado aqui nesta varanda há 50 minutos.

-     É? E fez o que? Valeu?

-     Não fiz nada, olhei a rua.

Demos uma gargalhada e entendemos. A vida de muitos hoje é assim. Correm para ficarem sentados sem fazer nada.

Cheguei aos 80 anos, ainda não posso dizer nada, apenas estou começando. Daqui a outros 80, voltarei e conversaremos. Sou um homem vivido. Que aprende a cada dia. Que aprendeu no momento em que conversou com vocês. Continuarei aprendendo e buscando sem parar. Sou insaciável e curioso e experimento tudo que posso em meu oficio. Façam isso, nunca se deem por satisfeitos. O conforto da vida é terrível, o fácil entedia, o difícil desafia, escreveu o poeta francês Paulo Valery. Numa tarde bonita, eu podia ter ficado em casa, lendo um livro, vendo um filme.

Não precisava apanhar uma estrada, sofrer com um GPS que se enganou, enfrentar caminhões nas pistas - sem almoçar (felizmente aquelas coxinhas e bolinhos de queijo foram os mais deliciosos que comi), chegar aqui, sentar diante de centenas de alunos, falar e falar, ser abraçado (ah! como foi bom ser abraçado e ver lágrimas nos olhos daquela jovem baiana, afobada e ansiosa e LINDA)  e voltar correndo porque tinha um compromisso à noite. Em casa, sentado num sofá, eu seria igual aquele amigo que se distanciou e chegou 50 minutos na frente e ficou a contemplar o vazio da cadeira da varanda. Não viu o rio paralisado e brilhante, a calma.

Vou para a vida, sempre. Porque em cada lugar pode ter uma turma como a do Objetivo ZN, com uma Marisa Telo à frente. Mas, nesta minha idade, estar diante de um grupo como o de vocês, ansioso, atencioso, excitado, cheio de adrenalina, por causa de livros meus, é de tirar o fôlego. Quando saí daí naquela tarde, disse a mim mesmo: vale a pena escrever, vale a pena ter usado a minha vida nisso. Quando você chega a essa conclusão em alguns momentos, você fica feliz.

Vocês não podem calcular o que foi ver meus personagens refeitos, reciclados, relidos, mexidos, transformados, vivos. Deixou-me arrepiado. Eu ficava pensando: o que virá?  A cada momento era uma surpresa. Serei preso? Terei ficha para entrar naquele espaço? A Casa dos Vidros d?Água ainda está intacta? Vocês entenderam o livro. Fiquei preocupado quando a máquina de  cancelar memórias começou a funcionar, mas eu tinha trazido meu capacete- protege-lembranças. Aqui vai o processo o projeto de fabricação desse capacete que me protege:

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Estes meus livros continuarão enquanto existirem alunos como vocês, professores como os que vocês têm. Felizmente eles ainda existem e resistem à mediocrização geral do ensino. Não é a escola que forma vocês. Vocês é que fazem a escola.

Meus livros continuarão, enquanto existirem  pessoas como Heloisa Cogo e Ana Caroline Pastre encarando a processo criativo, deixando a imaginação funcionar, liberando as fantasias, na certeza de que a realidade é mais absurda que o próprio absurdo. Nosso presidente tem processo na Lava jato; o ministro do Turismo está sendo processado; o presidente do senado tem doze processos, bem como Romero Jucá e dezenas de outros ministros, parlamentares, et caterva (perguntem ao professor de português que sabe um pouco de latim). Parece fábula? É pura realidade, loucura.

Por isso faço a literatura que faço e ela acaba sendo a realidade. E se a literatura de um autor com a minha idade ainda mexe, provoca, questiona jovens como vocês, é porque a literatura sincera, honesta, verdadeira bem feita não tem idade. A boa literatura não envelhece. Lemos hoje Dom Quixote sem perceber que o livro tem 400 anos.

Os abraços que aqui recebi me deixaram tão feliz quanto o prêmio da Academia, quanto a publicação de meu livro de contos, no dia em que fiz 80 anos. Um abraço a cada um de vocês. Um abraço a Marisa e a cada professor que se envolve nestes projetos. Literatura não só dá prazer, como salva a gente.

Ignácio


PS 1:  Essa fórmula na verdade é a da teoria da relatividade. Criei de um livro.

PS 2:  Amigos, quero acrescentar um obrigado especial àqueles que assinaram dedicatórias no caderno Cadeiras Proibidas. São eles: Elza Bastida (espero não ter errado na leitura), Professor Kaká, T. Reis, Ieda, Monica Miranda JP, Beatriz Milene de Oliveira, Marisa, Prof. Michel, Theo, que fez o desenho de um furo nação; ele deve ter o furo. Quero dizer que tem uma prateleira na minha estante dedicada a livros especiais para mim. Como um álbum precioso sobre meu escritor americano favorito, Scott Fitzgerald, uma edição de aniversário de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, uma edição especial, raríssima de Trópico da Câncer, de Henry Miller, um escritor que enfrentou o conservadorismo moral e sexual dos anos 30 e 40, uma edição especial do poema Juca Mulato. O fac-símile da primeira edição de Vidas Secas (aconselho a leitura) de Graciliano Ramos, de 1938, e outras. Pois o caderninho preto, Cadeiras Proibidas repousa entre essa gente de primeira classe. Obrigado!

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